Crônica!
Julho 3, 2008 by botecodabolaA derrota, por Nelson Rodrigues
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Foto: Caricatura de Baptistão - http://baptistao.zip.net Aos tricolores, uma crônica de Nelson Rodrigues. Sem mais palavras. O altivo profeta Amigos, cada um de nós tem um pouco de viúva siciliana. Como se sabe, há umas tantas senhoras, na velha Sicília, que nasceram com uma vocação irresistível para a viuvez. Conheci uma delas e declaro: que esplêndida figura. Sempre de preto, num luto feroz e inconsolável, era uma viúva nata e hereditária. Solteira, jamais tivera um flerte, um namorado, um noivo ou marido. Apesar disso, andava pelas calçadas, pelas esquinas, pingando a admirável viuvez. O que eu queria dizer é que, domingo, no Maracanã, ao soar o apito final, o profeta sofreu como uma dessas viúvas solteiras da Sicília. Durante meses, ele afirmara e reafirmara, com a ênfase das certezas totais, que o Fluminense ia ser campeão. E súbito, acontece, no Maracanã apinhado, o empate hediondo. Dir-se-ia que o clássico teve dois resultados: 0 a 0 para nós e uma goleada deslumbrante para o adversário. Pois a santa alegria rubro-negra foi, sim, de goleada, de banho. O profeta vacilou. Os fatos desmentiam o vaticínio. Fazendo das tripas coração, ele rosnou: “pior para os fatos!”. Mas uma frase não salva um clube e repito: uma frase não devolve um título. E a vontade do profeta foi a de sair do estádio, sentar-se no meio-fio e chorar lágrimas de esguicho. Coisa curiosa! Foi no domingo que o profeta aprendeu a entender a viúva siciliana. Há um secreto deleite na viuvez inconsolável e ululante. O ser humano gosta e paga para sofrer. Todo o charme do futebol está na angustia certa de qualquer clássico e de qualquer pelada. Duzentas mil pessoas foram ao Maracanã para a mais dilacerada das torcidas. (…) O diabo é que não veio o gol tão sonhado, tão desejado, tão temido. (…) Inteiramente inútil a nossa superioridade. À saída do estádio, queriam explicações do profeta. Ele teve que responder que o profeta não precisa argumentar, demonstrar, raciocinar. E concluiu, do alto das suas alpercatas – “O profeta é burro”. Jornal dos Sports, 18/12/1963 (crônica publicada no livro Nelson Rodrigues, O profeta tricolor, Cem anos do Fluminense, ed. Cia das Letras, 2002) By Fernando Arbex |
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